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O Vale dos Amputados

Eu estudava numa faculdade que ficava em cima de um morro, estava para me formar e precisava entregar o último trabalho para um professor estranho e meio maluquinho. O laboratório desse professor ficava no subsolo da faculdade, na parte dos fundos e apesar do calor que fazia lá fora, esses túneis eram gelados e levemente úmidos.

O subsolo era muito escuro e vazio, andei muito, me embrenhando cada vez mais para dentro dos labirintos da universidade, até que achei o tal laboratório.
O professor estava lá, sozinho, mexendo em seus tubos de ensaio, provavelmente fazendo alguma experiência.
Ele me disse para entrar na porta que estava atrás dele e deixar o trabalho em sua mesa, pois se eu deixasse no laboratório ele poderia perder o trabalho.

Entrei, imaginando que atrás da porta estaria um escritório. Para minha surpresa, quando abri a porta veio uma luz muito forte, me cegando. Quando finalmente consegui enxergar, percebi que era o sol: eu estava atrás do morro que comportava a universidade. Atrás de mim a porta fora fechada e lá estava eu, com meu trabalho embaixo dos braços, em cima de uma montanha de pedras.

Bati na porta desesperadamente, ninguém parecia me ouvir ou se importar em abrir a porta. Ao longo do edifício não havia mais nenhuma porta, e percebi que teria que descer o morro e tentar dar a volta pela estrada.
Desci com muito cuidado, pois a descida era ingreme e as pedras pontiagudas deixavam o caminho perigoso.

Depois de muito esforço, terminei a descida e cheguei num vale. Lá, comecei a ver pessoas sentadas no chão e fui até elas.
Eram pessoas sem pernas e sem braços, algumas com os cotocos recém enfaixados e até com marcas de sangue.

Pude reconhecer um ou outro como alunos do mesmo ano que eu e alguns veteranos. Perguntei o que acontecia, e um jovem me respondeu:
"O professor é um cientista louco! Ele faz os alunos virem até ele, depois nos prende aqui e começa a caçada. Quando ele consegue nos alcançar, nos amputa e usa nossos membros para seus experimentos malucos! Por fim, nos deixa aqui sem possibilidade de fugir, já que a subida é muito díficil e nós, sem braços nem pernas, não temos a menor chance de escapar.
De vez em quando ele leva alguns de nós para aquele barracão e faz experimentos conosco. Alguns não voltam com vida.
Para sobrevivermos, ele deixa comida e remédios em locais estratégicos que podemos alcançar e passamos a viver aqui, nesse lugar que chamamos de o Vale dos Amputados."

Foi aí que entendi, ele sempre pega alunos que estão acabando o curso, para não ter perigo de ser procurados, já que não são mais alunos da faculdade.
Não vou permitir que façam isso comigo e começo a correr, procurando uma saída.
Então, do lugar onde estou, vejo que uma espécie de máquina está sobrevoando o vale. Ele não voa alto, e sim baixo o suficiente para "caçar".

Resolvo correr até o barracão, já que era o único local com teto, ele não poderia me pegar pelo ar. Entro e ali vejo meu maior pesadelo: uma infinidade de braços e pernas, de todos os tamanhos, cores e tipos, dentro de containers de vidro com líquidos das mais variadas luminiscencias envolvendo aqueles pedaços inertes de carne humana.
Procuro algo para me defender, e encontro uma serra cirúrgica - instrumento provavelmente usado para cortar o corpo dos alunos.
Ela está ligada na tomada e funcionando, me posto ao lado da única porta, agachada, e espero. Consigo ouvir o som vindo de fora, da máquina voadora pousando e sendo desligada.
Ouço passos. Tenho apenas um adversário, o professor.

Ele abre a porta e assim que coloca a primeira perna para dentro do galpão, uso a serra para cortar sua perna fora.
Tem sangue por todo lado agora, o jaleco branco do professor agora se tornou rubro. Ele atira na minha direção uma pistola com tranquilizante, por sorte ele erra.
Não espero que ele tente novamente me acertar e corto seu braço fora.
Eu poderia parar por aí, pois provavelmente ele morrerá por perda de sangue. Mas depois de tudo que vi, aquilo não será o suficiente.
Eu termino de cortar sua outra perna e seu outro braço. E enquanto o professor se estrebucha, inofensivo no chão, vou até o final do galpão.

Ali havia uma espécie de fornalha, com fogo crepitando. Pego um instrumento de metal enfiado no fogo e levo até o professor. Uso esse objeto para cauterizar suas feridas e assim estancar a perda do sangue.
Nesse instante ele sai do desmaio que se encontrava e acorda urrando de dor.
Quando termino, devolvo o equipamento de onde tirei, e tento levanta-lo.

É incrível como um homem adulto fica leve sem os membros. Consigo carrega-lo até uma maca hospitalar que há no canto do galpão. Coloco-o ali e procuro pelos remédios... faço-o tomar antibióticos e remédios para dor.
Por fim, procuro em seus bolsos a chave para sair daquele vale infernal.
Com a chave em mãos, me despeço do professor:
"Já que você condenou tanta gente a viver amputado, fiz questão de deixa-lo vivo.
Agora você estará preso a uma cadeira de rodas, para sempre necessitando da ajuda de outros para fazer as coisas mais básicas."
Então, jogo o trabalho que fui entregar na fornalha, e observo as folhas virarem cinzas.
"Afinal, não consegui entregar o trabalho. Mas tudo bem, espero te ver no próximo semestre". Fim.

Um espírito baixou em minha vó

Num domingo foi feito uma festa na casa da minha vó, e eu fui lá. Estávamos todos na casa como nos velhos tempos, porém as pessoas ficavam se revezando em turnos para vigiar minha vó.Não entendi o porquê, até que me foi explicado que os problemas de memória que minha vó anda tendo não é culpa da idade como imaginávamos, e sim é um espírito que encorpora nela, uma espécie de demônio. No começo, ele apenas deixava ela esquecida das coisas "reais", mas agora ele está ficando cada vez mais forte e passando a impor partes da personalidade dele nesses momentos em que ela esquece das coisas.
Ela ficava sendo constantemente vigiada, porque quanto mais forte o demônio ficava, maior a chance de não apenas se manifestar em palavras, mas também usar o corpo da minha vó para realizar seus objetivos malignos.

De início, não acreditei muito nessa história até que vi minha vó fumando uma bituca de cigarro. Primeiro a bituca estava apagada, e eu achei muito estranho, porque ela nunca foi fumante, também porque era uma bituca apgada que ela tentava fumar, ou seja, nunca conseguiria.
Porém, do nada a bituca acendeu, podia ver a brasa brilhando e era o mesmo brilho vermelho que tomou conta dos olhos da minha avó... era assim que ele se manifestava!
Então corri, e bati na mão dela fazendo com que ela derruba-se a bituca num copo dágua, apagando-a. Conforme a bituca apagou, os olhos dela foram perdendo o brilho vermelho, mas antes de se apagar por completo, ela bebeu toda a água, engolindo assim a bituca.

Fiquei desesperada, se a bituca acendesse dentro do corpo da minha vó, ela poderia sofrer graves queimadura e até morrer! Foi quando fiquei atrás dela e apertei seu esterno, fazendo a manobra que as pessoas vomitam aquilo que se engasgam. Ela vomitou a bituca e ela realmente estava acesa, mas pelo menos minha avó estava a salvo.
Quando olhei para ela, porém, não era mais minha avó, ela dava uma risada com uma voz gutural, seus olhos eram duas bolas de fogo e suas feições de velhinha simpática se tornara uma máscara demoniaca. Então, pisei na bituca fazendo-a apagar, e minha vó voltou ao normal.

Eu a abracei, assutada, com medo de perder essa pessoa tão importante na minha vida, seja perde-la para a morte, seja com ela se transformando numa pessoa diferente do que é. Fim.
____________________________

Acho que sonhei isso pois minha vó realmente está esquecendo das coisas e tendo problemas para ter uma vida autônoma como sempre teve.
Tenho medo que ela morra, tenho medo que ela sofra. É muito triste ver uma pessoa que amamos se apagar assim lentamente.
Sinto muita culpa, de não ter sido tão presente quanto gostaria, e ao mesmo tempo tenho medo de, na minha velhice, passar por isso também.
As vezes quando a vejo tenho vontade de chorar, porque ela vai morrer e está ficando uma realidade cada vez mais próxima.
As vezes eu tenho saudade dela, mas tenho medo de ligar e ela não me conhecer, tenho medo de vê-la e ouvi-la perguntando mil vezes a mesma coisa, pois fico tão triste... Sei que não resolve nada eu evitar esse contato, mas aí eu fico cada vez mais me sentindo culpada, e vira uma bola de neve.

Banheiro sexy

Era uma vez um empreendimento inovador. A idéia era preservar o ambiente, construindo banheiros comunitários e "verdes", onde as pessoas poderiam tomar banho nesses lugares mediante pagamento. A longo prazo, sairia mais barato que tomar banho em casa e ainda estaria preservando o planeta.

O problema é que as pessoas tendem a sempre preferir o conforto e a praticidade, ao invés do "correto" e o negócio estava indo de mal a pior.
Outra coisa que estava deixando a dona do empreendimento maluca era a instalação adequada do box de um banheiro especial, a idéia era fazer de vidro fosco, desses que de fora não se enxerga nada, mas de dentro pode-ser ver tudo o que acontece a sua volta. Assim, a pessoa poderia tomar banho com toda discrição e ainda admirar a paisagem.
Porém, os vidros foram colocados ao contrário e seu banheiro especial não poderia ser aberto ao público, já que quem tomasse banho ficaria exposto.

Foi aí que ela teve uma idéia que poderia salvar o empreendimento: Se tomasse longos banhos de maneira sexy no banheiro dos boxes invertidos, atrairia toda uma platéia que teria que pagar para entrar se quisesse ver o show.
E como seria feito fingindo não saber do fato do boxe estar invertido, o negócio se manteria com a proposta inicial, que é economizar água e salvar o planeta.

E assim ela fez, não apenas se salvando da falência, como também aumentando exponencialmente seus clientes na base do boca-a-boca e levando as pessoas a repensar seus hábitos. Fim.

O médico transtornado

Uma viagem programada, um fim de semana romântico para comemorar seus 30 anos de casados. Uma cidade do interior não muito pequena, hotéis confortáveis e preço acessível. Um casal no carro como tantos outros, mas essa viagem se tornou diferente de qualquer outra.

Eles chegaram a noite, a intenção era ter esse tempo para descansar da viagem, e acordar cedo no dia seguinte para aproveitar melhor a cidade.
Estava tudo especialmente vazio, não se via vivalma, fato que acabou sendo creditado ao provincianismo local.
Chegaram ao hotel fazenda, que ficava no meio de uma estradinha de terra. A luz fraca vinda de um poste iluminava a entrada em arco, cheio de flores coloridas. O portão estava aberto, escancarado.

Estacionaram o carro em frente a uma espécie de guarita, as luzes estava acesas mas ninguém apareceu. Desceram, tocaram a campainha, nada. Parece que as coisas tinha sido largadas assim de repente, pois havia um computador ligado e até um copo de café frio no balcão.
Esperaram. Como ninguém apareceu, eles se esgueiraram atrás do balcão e pegaram a chave do chalé que haviam reservado. Resolveram que iam dormir e depois explicariam, afinal já estavam cansados e passava da meia noite.

No dia seguinte, acordaram cedo como planejado. Repararam que não havia outros carros e nem outros hóspedes. Foram ao restaurante onde um café da manhã seria servido: fechado. Na guarita, ninguém, o café frio continuava no mesmo lugar da noite.

Pegaram o carro e foram para a cidade, não sem antes tirar toda a bagagem do chalé e coloca-la de volta ao porta malas.
As ruas, a praça central, a igreja matriz. Tudo deserto, parecia uma cidade fantasma. Ligaram o rádio, apenas estática.
Rodaram as ruas da cidade, apesar da beleza do lugar a apreensão só aumentava, e finalmente resolveram voltar pra cidade grande.
Enquanto se dirigiam a estrada, viram um carro, correndo. Seguiram.

Era um carro bonito, esportivo. Ele subia uma rua bem larga, cheia de casas enormes, tão bonitas e caras quanto o automóvel.
Parou na frente de uma casa bem grande, provavelmente a mais bonita que já viram pessoalmente, com um quintal enorme sem muros.
Um homem de trinta e poucos anos saiu meio cambaleante do carro e entrou na casa, aparentemente a porta não estava trancada porque ele não usara chaves.

O casal se entreolhou, e com aquela comunhão de idéias que só pessoas que convivem há muito tempo tem, não precisaram falar nada: os dois resolveram que iam atrás do homem e satisfazer sua curiosidade sobre o que estava acontecendo.

A porta estava entre aberta. Era uma casa espaçosa, com decoração clean de móveis claros e paredes brancas. Uma parede era inteiramente de vidro e era tudo tão luminoso que quase doía os olhos. Parecia mais um laboratório do que uma residência.
 A casa ao invés de ser construída para cima, tinha um projeto peculiar, e o andar adjacente era para baixo, o que talvez explicasse a necessidade de tanta luz.

De onde entraram podiam ver que o homem, que usava um jaleco branco, estava no andar de baixo. Cochicharam entre si que deveria ser um médico.
Era possível vê-lo se movimentando de forma meio atribulada, derrubando ocasionalmente coisas no chão, provavelmente enquanto fazia as malas.
Ele falava, mas não era com outra pessoa. A voz que ele fazia ao falar não era uma voz que um homem adulto usa numa conversa normal, era algo meio infatilizado, ele parecia alguém falando com um cachorro.

- Você vai ficar bem, guinha. A gente vai dar o fora daqui antes que alguém faça qualquer coisa com você. A gente vai se recuperar...

Eles desceram as escadas, que ficava no meio da sala de estar e tinha degraus bem largos onde cabiam confortavelmente três adultos ao mesmo tempo. O andar abaixo tinha uma série de bancadas e recipiantes de vidro com líquidos coloridos.
Quando o médico os viu, ele se assustou, procurou algo para se defender e não achando, jogou uma mala de viagem aos pés do casal, gritando.

- Vocês não tem direito de levá-lo embora. Não estou no laboratório, estou em casa, eu tenho direitos!
A esposa começou a falar:
- Calma, não somos ladrões. Só queremos saber...
Ela foi interrompida pelo médico, que corria de um lado pro outro, e gritava:
- Não são ladrões, são do governo, dá na mesma. Vocês não podem levar o Guinha, ele não fazia parte da pesquisa. Eu deixei todos os outros no laboratório que vocês queimaram! Eram mais de 100, e vocês queimaram todos! Não vou deixar vocês matarem o Guinha. Eu vou conduzir minha experiência de maneira independente agora.

Enquanto falava, ele ia cada vez mais recuando, em direção a uma porta que tentava fechar. Pelo ângulo certo, foi possível observar o que tinha dentro daquele cômodo.
Era um banheiro com uma grande banheira. Dentro dessa banheira havia um líquido azul fosforescente e boiando nessa água turva havia uma formiga... uma formiga de quase 2 metros de comprimento!
À visão dessa aberração o esposo ficou assustado. Apesar de estar na meia idade, ainda era forte e se jogou em cima do médico, subjugando-o ao chão. Trancou a porta atrás deles, em pânico, gritando:
- Cuidado, aquela coisa ia te pegar!
- Aquela coisa é o Guinha! Ele é inofensivo...
Enquanto o médico proferia essas palavras, o homem o soltou um pouco, o que o fez colocar as mãos no rosto e chorar, incontrolavelmente.

Agora de perto, puderam observar que o médico estava com olheiras enormes, cabelo ensebado e até um pouco fedido. Parecia uma pessoa a beira do desespero e do cansaço.
A esposa sentou no chão junto deles, e o casal consolou o jovem até que ele conseguiu parar de chorar e, convencido de que eles nada mais eram do que visitantes curiosos, contou-lhes a história, ainda em meio a soluços eventuais.

O médico era um cientista que trabalhava num projeto secreto de uma parceria publico-privada entre o governo e uma grande empresa farmacêutica. A idéia era manipular o DNA de algumas espécies nativas para que, em contato com certos produtos químicos inofensivos ao seres humanos, os animais perdessem determinados atributos, principalmente a vontade de comer alguns tipos de plantas muito usadas na agricultura ou até mesmo materiais da construção civil.
Era um projeto pioneiro, que substituiria os tão temidos agrotóxicos e venenos da dedetização convencional, e que possibilitariam colheitas melhores e menor perigo de cupins e outras pragas urbanas.

Porém, o produto era muito caro. Na tentativa de barateá-lo, a empresa tirou um dos compostos de segurança, que impediam os animais de criarem mutações espontâneas em cima das mudanças genéticas.
Os testes iam muito bem, até que resolveram experimentar nas formigas. Elas tem um apetite voraz, e na tentiva de alterar esse paladar em seu DNA, uma outra cadeia da sequência foi afetada. Sem a trava que impedia a mutação, elas desenvolveram uma série de características indesejadas, entre elas o tamanho descomunal e a mudança de alimentação, que passou de açucar e fungos para carne.

Essa nova preferência alimentícia foi descoberta quando algumas formigas gigantes coordenaram um ataque a um dos cientistas, comendo-o por inteiro em apenas alguns segundos. O local foi colocado em quarentena, e logo depois destruído por completo.
O que eles não sabiam era que muitas formigas de tamanho comum escaparam do prédio, mas carregavam dentro de si a falha no DNA latente, só precisavam entrar em contato com o produto ativador.

Ao construírem suas colônias, algumas espécies de formiga criam fungos para poder se alimentar. Embora cativos, as vezes os fungos conseguem dominar algumas formigas e fazem com que elas trabalhem para tirá-los de lá e arrumem um lugar novo para viverem, são conhecidas pela ciência como as formigas zumbis.
 Por uma coincidência sinistra, esses fungos tem como habitat ideal lugares que são ricos em certos compostos químicos, os mesmos que desencadeiam a mutação das formigas.

O estrago estava feito e uma nova espécie de formigas gigantes e carnívoras foi criada. Porém, não eram formigas livres, e sim insetos autômatos, dominados por um fungo. Por sua vez, os fungos mantiveram o mesmo crescimento de antes, o que impossibilitou-os de dominar essas formigas por completo dessa vez.
A natureza, em sua tentativa irrefreável da manutenção da espécie mais apta, deu um jeito na situação, transformando a relação predatória dos fungos e das formigas numa espécie de mutualismo. Agora, as formigas carregam os fungos como hospedeiras intermediárias, mas ao se alimentarem transmitem assim os fungos para seus hospedeiros definitivos: os humanos, transformando-os em zumbis com características insectóides, pois é dessa forma que os fungos conseguem controlá-los.

O problema começou na noite anterior, e a cidade foi evacuada, mas o ataque não foi contido e está se espalhando numa escala sem precedentes.

Guinha, corruptela de formiguinha, é uma formiga gigante que o médico criou em casa por achar divertido. E agora é o último espécime das formigas mutantes não-zumbificada por fungos, e resta nesta formiga e no médico a última esperança da humanidade de controlar o ataque dos zumbis insecta.

Tocados pela dedicação do médico a essa causa, e vendo que o que aconteceu nessa pequena cidade  é apenas uma amostra do que vai acontecer no mundo todo, o casal resolve ajudar o médico.

E assim eles ganharam um presente de casamento inesquecível: a chance de salvar o mundo. Fim.

O ataque dos zumbis insectas

Era noite ja avançada, estava num ônibus de viagem voltando para São Paulo. Apesar do cansaço, estava ansiosa para chegar logo. O ônibus estava na Marginal Pinheiros, e eu olhava a imagem iluminada da cidade que se espelhava no rio.
De repente, o motorista parou o ônibus. Podiamos ver bloqueios em toda Marginal, e ele nos avisa que a cidade esta sitiada a partir daquele ponto, e que deveriamos esperar a liberação para podermos entrar. Disse também que não era nada grave e que em breve deveríamos ser liberados.

Então, somos levamos a uma padaria bem grande de três andares para esperar. Ligo para casa, e peço para ser buscada, já que não pretendia ficar esperando um tempão ali estando tão perto de casa.
Subo para o último andar com meu café, e enquanto o saboreio ouço um barulhão vindo dos andares mais baixo.
Olho pela escada em espiral, e vejo outros passageiros do ônibus sendo atacados por pessoas ensandecidas, com roupas ensanguentadas, que os mordem... e essas pessoas começam a subir as escadas.
Aproveito que estou no último andar e procuro algum tipo de saída de emergência, e encontro uma porta que leva para uma escada marinheiro externa. Chamo as pessoas que estão ali, mas ninguém me dá ouvidos, eu viro as costas e vou desço as escadas.

Ao chegar no chão, consigo ouvir os gritos vindos de lá de dentro e resolvo correr pela rua, procurando algum tipo de lugar para me proteger. Fico pensando que esse deve ser o motivo de porque a cidade esta sitiada... está acontecendo um ataque zumbi, e aparentemente os bloqueios não estão conseguindo contê-los.
Resolvo voltar ao ônibus, provavelmente minha melhor chance seria sair da cidade.

Enquanto vou decendo a rua, os zumbis que estavam na rua começam a me perseguir. Percebo que eles andam mais rápido em linha reta e ficam meio confusos quando tem que mudar a direção, e passo a correr em zig zag para ter mais chance de sobrevivência.
Nessa correria, pego um pedaço de pau no chão e quando eles chegam perto, dou pauladas na cabeça deles com o intuito de assustá-los ou mesmo matá-los, porém eles aparentemente não sentem nenhum tipo de dor e um deles, mesmo com a cabeça estourada, continuou andando atrás de mim.

Fui decendo a rua em zig zag, me desviando dos zumbis, enquanto tentava planejar um caminho mais seguro de chegar no ônibus de viagem que ficara parado na avenida.
Os zumbis estão aumentando muito em quantidade, se aproximando cada vez mais, e eu não estou mais perdendo meu tempo batendo neles, pois perdi a esperança de conseguir abatê-los.
Ao final da rua, perto da esquina, vejo um carro semi aberto. Entro dentro dele e tranco as portas, com a intenção de despistar os zumbis e ter mais chance de fugir.

Enquanto estou dentro do carro, tento ligar novamente para casa, mas agora ninguem atende minha ligação. Temo pelo pior.
Coloco o celular no modo silencioso, para não ter perigo de ele tocar enquanto estou escondida e chamar atenção para mim, quando vejo um homem tentando entrar no carro desesperado. Fico assustada, mas percebo que ele parece normal e que os zumbis estão vindo na direção dele. Ele tenta olhar dentro da janela, e eu abro a porta para ele. Se a porta do carro estava aberta antes, provavelmente é porque tinha um dono.

 Ele entra e logo fecha a porta atrás de si. Não dou tempo que ele tente me expulsar do carro, e já vou dizendo que temos que ir até o ônibus de viagem para fugir dessa cidade infernal, quando ele me pergunta se tentei ligar o carro. Digo que não, e ele diz calmamente que está sem gasolina, que ali foi o maximo que ele conseguiu chegar dirigindo e havia saído procurando um posto, como não achou estava voltando para o carro para se refugiar dos zumbis que estavam lá fora.

Eu digo onde está o ônibus, não é longe, é apenas um quarteirão para chegar na Marginal e que podemos alcançar lá se corrermos. Por sua vez, o homem me diz que veio de lá e que está infestado de zumbis, sendo virtualmente impossível ir a pé.
Ele me mostra que a casa ao lado de onde o carro está estacionado tem um muro meio baixo, e que poderíamos subir em cima do carro, subir no muro e ir por cima do telhado das casas, afinal os zumbis não parecem ser escaladores.

Esperamos um momento mais propício, com poucos zumbis por perto. Saímos do carro, subimos no capô e pulamos para cima do muro da casa ao lado. Enquanto executavamos essa manobra, os zumbis começaram a se aproximar e imitar nossos passos, de forma que passaram a nos seguir em cima das casas também.

Ao percebermos que os zumbis nos seguiam, também reparamos que no meio da rua havia um zumbi muito maior que os outros. Ele além de ser mais alto e mais robusto que os outros, parecia que sua pele estava quase estourando por não suportar sua própria essência. Além disso, ele estava em avançado estado de putrefação e brilhava levemente azulado, mas como era de noite sua luminosidade não era tão sutil.

Além de ser um zumbi que se destacava no meio dos outros, ele ficava parado e parecia que, de alguma forma, ele conduzia os outros zumbis. Não tive dúvidas e atirei um pedaço de telha quebrada nele. O golpe não foi dos mais fortes, mas percebi que enquanto seu corpo recuava com o impacto, o corpo dos outros zumbis menores também recuaram da mesma forma.

Foi aí que percebi: eles são zumbis insectas! Seus corpos são coordenados por uma única mente, assim como uma colônia de formigas são coordenadas pela formiga rainha. O segredo seria não apenas alcançar o ônibus, como usá-lo para atropelar e destruir o zumbi-rei.
Enquanto pensava nisso e andava sobre o teto das casas, tomando cuidado para desviar dos cabos elétricos que poderiam nos eletrocutar, vejo que meu companheiro foi agarrado pelos zumbis que nos alcançaram. Já estávamos na metade do quarteirão, e ele grita para que eu vá e me salve, enquanto ele tentará segurar os zumbis o máximo que puder.

Continuo o caminho sem olhar para trás, até que chego no fim quarteirão. Não há tantos zumbis daquele lado, eles aparentemente estão todos reunidos ao redor do carro tentando subir por onde subimos. Pelo visto, eles aprendem apenas pela observação.
Não há forma segura de descer do telhado, eu me seguro nas grades do muro o máximo que consigo e me jogo ao chão. Caio um pouco sem jeito, ralando o joelho e as mãos, mas por sorte sem nenhum dano sério.

Corro o mais rápido que posso, ainda em zig zag, até o ônibus. Ele está vazio, com exceção do corpo do motorista totalmente devorado nas escadas de entrada. Com pressa, puxo o que resta de seu corpo para dentro do ônibus e aperto o botão de fechar a porta. Ela se fecha na cara do primeiro zumbi que chega no ônibus. Por enquanto estou segura.

Procuro nos bolsos daquele cadáver destroçado a chave do ônibus, e a encontro. Sento no banco do motorista, coloco a chave na ignição e torço para que dirigir um ônibus seja parecido com dirigir um carro, pois nunca dirigi algo tão grande antes na vida.
Apesar da dificuldade, o princípio é o mesmo. Fazendo muita força, consigo virar o volante e entrar na rua da qual sai.
O rei-zumbi-insecta ainda está no meio da rua com seu horripilante brilho azul.

Vou pegando velocidade com o ônibus conforme vou avançando, e sem dó nem piedade eu atravesso aquele corpo inchado e brilhante. Ele bate no vidro do ônibus e vai escorregando devagar pra baixo dele, deixando uma marca de um líquido azulado. Vou procurando a ré, enquanto so zumbis começam a rodear o ônibus, tentando proteger seu mestre.

Recuo com o ônibus, e vejo que o rei insecta ainda está pulsando, vivo, no chão. Avanço novamente, agora com cuidado para que ele não apenas seja atacado pelo impacto do ônibus, mas para que seja esmagado por debaixo de suas rodas.
Sinto o estremecimento do veículo, como se tivesse passado em cima de uma lombada. Sinto outra vez, quando passo com a roda traseira. Dou ré novamente, só para garantir que meu trabalho esteja completo, apesar de já perceber que os outros zumbis estão caídos no chão, mortos.
Não sei exatamente quantas vezes atropelei o rei-zumbi-insecta, mas foi o suficiente para que ficasse macerado, até que seu líquido azul gosmento parasse de brilhar há muito.

E então, em nome do herói anônimo que se sacrificou para que eu vivesse, sigo para a cidade, a procura de outros reis-zumbis-insectas para serem esmagados pelo meu ônibus assassino. Fim.

Todos os males do mundo

Era uma vez uma caixa. Eu estava mexendo numas coisas e acho essa caixa, não a reconheço e fico curiosa, pego pra mim, mas não a abro.
Então, sou teleportada para outro lugar... um lugar etéreo, sem chão, sem céu, onde não posso enxergar mais nada além de mim e da caixa. Aqui, ao invés de uma caixinha pequena e decorada, eu vejo uma caixa enorme, magnanima.
E da caixa sai uma voz, não necessariamente audível, mas uma voz que fala comigo dentro da minha cabeça.

- Você encontrou a caixa que contém todos os males do mundo. Ela é sua agora, e é sua também a escolha de quem vai receber esse mal. Ao abri-la, você deverá escolher o quanto desse mal é seu, e o quanto é do mundo todo.

Por um momento fico intrigada com tudo isso, e quero começar do básico e pergunto onde estou.

- Você está fora do espaço tempo. E aqui você ficará até fazer sua escolha sobre o conteúdo da caixa.

- Quem é você?

- Sou a personificação da caixa em sua mente.

- E se eu não escolher nada?

- Ficará aqui para sempre.

Vejo que tem uma falha nessa história e arrisco:

- A caixa ainda está fechada, então não preciso escolher o destino dela.

- Realmente, você não precisa, mas ficará aqui com a caixa até abri-la e então liberar seu conteúdo.

- Se eu abrir a caixa tenho como consequência a responsabilidade de decidir sobre o mal do mundo, certo?

- Sim.

- Se eu não abri-la, então, não tenho dever nenhum sobre isso.

- Sim.

- Então, porque devo ficar nesse lugar?

- Pois esse é o lugar que pertence a caixa, e consequentemente, o dono da caixa. Ao abri-la, você se liberta da condição de dona da caixa e de responsável por todos os males do mundo.

- Você é a caixa de Pandora?

- Pandora foi uma das suas predecessoras sim, provavelmente a mais famosa. Mas não sou mais a caixa dela, agora sou sua.

- Quero abrir mão da condição de dona da caixa.

- Você não pode fazer isso, pois é a única pessoa aqui, só há você e a caixa, então ela deve ser sua.

- Então eu me recuso a abri-la e espalhar o mal que tem nela.

- Se não abrir, ficará presa aqui por toda a eternidade.

- A caixa não é justa. Se eu não escolho o destino de seu conteúdo, fico aqui para sempre presa, ou seja, é como se eu tivesse escolhido algum mal para mim também, embora eu tenha me recusado a fazer a escolha.

- A justiça não faz parte das atribuições da caixa. A regra é simples: você é responsável pelo conteúdo da caixa ao abri-la, e enquanto não abrir não pode voltar a sua vida normal.

- Você está tentando jogar a sua própria responsabilidade para mim. Se a única opção que você me dá é libertar o mal, a culpa dos males serem libertos é sua, e não minha que sou sua refém.

- Você pode escolher ficar com todo o mal para você, se é isso que te incomoda.

- Se eu escolher ficar com todo o mal, terei minha vida arruinada e nenhum agradecimento, pois a natureza humana é egoísta, e ninguém se importará com meu sofrimento. Não vejo como uma escolha viável.

- Então jogue o mal para o resto do mundo, afinal você mesmo diz que ninguém se importará com você.

- Se eu  liberar o mal para o mundo, ele desmoronará a minha volta, e todas as pessoas que conheço e amo estarão sofrendo. Carregarei para sempre a culpa de que poderia ter feito algo para amenizar o sofrimento deles, mas escolhi ser egoísta.

- Você sabe as consequências de sua escolha, basta escolher.

- Todas as consequências dessa escolha terível que você imputa a mim é o sofrimento. Se pego os males, eu sofro. Se libero os males, eu sofro pelos outros. Se eu fico aqui e me recuso a fazer a escolha, acabo sofrendo por toda a eternidade, sem ter direito a minha vida.

A caixa fica muda. Eu começo a pensar que deve existir uma possibilidade de sair dessa situação que não estou enxergando. Depois de algum tempo - quanto tempo? horas? dias? anos? aqui o tempo não existe e tudo parece eterno - decido como agir. Até então a caixa fez as regras, agora é minha vez de tomar as rédeas da situação.

- Já fiz minha escolha.

- Pode falar.

- Não abrirei a caixa, nunca, jamais, em hipótese alguma.

- Então você ficará eternamente aqui até resolver abrir a caixa.

- Já escolhi que não vou abrir a caixa, essa é a decisão final. E ao menos que VOCÊ não queira ficar aqui por toda a eternidade sem ser aberta, segurando todos os males do mundo sozinha, podemos negociar uma outra opção além daquelas que você já me apresentou.

- Não há outra opção. O dono da caixa deve abri-la e escolher o destino de seu conteúdo, isso é inegociável.

- Mas você pode transitar entre isso aqui e o mundo real?

- Sim.

- E você quer ser aberta?

- Sim.

- Pois então tenho uma proposta para você.

- Fale.

- Não vou abrir a caixa. Porém, você quer ser aberta, e eu quero voltar a minha vida normal. Você, sendo minha, virá comigo, seguirei minha vida, guardarei você. Um dia, em menos de 80 anos, morrerei, pois o ser humano raramente vive mais do que um centenário. Meus pertences automaticamente passarão a pertencer a outra pessoa. Você terá uma chance de ser aberta, uma chance maior de ser aberta em menos de 100 anos do que se ficar aqui comigo por toda a eternidade. Essa é a minha proposta, é pegar ou largar. Qualquer outra opção é, como você mesma diz, inegociável.

- Aceito.

Fim.

O Cortador de Grama

Durante a infancia quis ser astronauta, cresceu e percebeu que nao seria, exigia muito estudo e sua situacao financeira nunca lhe permitiria. Virou mecanico. 
Um dia, mexendo num cortador de grama, resolveu fazer dele um foguete e o mandou para o ceu estrelado, onde sempre sonhara ir... realizara seu sonho atraves de um cortador de grama. Fim

 

A Ilha

Era um dia de sol, bonito, calor. Eu estava saindo da estacao de metro. Ao fundo, ouvi o som de um aviao, mais alto do que deveria estar. Acho estranho, pois estamos na Ilha e aqui nao eh rota de avioes, e comeco a observar.
Vejo que ele esta voando de maneira irresponsavel, e aponto. Outras pessoas ao meu redor param para olhar, com um misto de admiracao e preocupacao pelo que esta se passando nos ceus.
O aviao comeca a perder altitude, parece que vai cair quando surge um outro aviao, maior que o primeiro, com aspecto militar, e passa a ficar embaixo dele, como que segurando o aviao de cima, impedindo que ele caia.

Comeco a lembrar das noticias de ataque terroristas com avioes por todo o mundo. Estamos num dos maiores cartoes postais do pais - a estacao de metro que serve de ligacao entre o continente e a Ilha - um ponto vital e possivelmente um alvo valioso. Se o aviao for jogado na estacao da praia, alem de afetar o transporte da cidade causando um caos incontrolavel, vai matar muita gente importante, pois aqui nao temos apenas trabalhadores bracais, e sim as maiores mentes do pais.
Talvez a nossa unica chance de sobrevivencia seria correr para a praia. Nao seria possivel salvar a estacao, mas a vida de todos que estao na rua observando sera poupada.
Estando na agua, ela ira amortecer os estilhacos e uma possivel explosao e fogo vindo do metro.

Entao, comeco a gritar pras pessoas irem pra praia e entrar no mar.
Entramos, muita gente mesmo, de roupa e tudo, na agua, ficamos de maos dadas para apoar uns aos outros. Pra todo lado que se olha tem gente, o mar esta calmo e isso encorajou ainda mais as pessoas a entrarem, e tentarem se proteger com esse escudo hidraulico.

Os dois avioes continuam na batalha, o de cima, menor, perdendo altitude, e o de baixo tentando levanta-lo e empurrando-o para o lado. Ficamos na agua assistindo ao espetaculo, quando pecebemos que os dois avioes estao indo em direcao a praia.
Nesse momento ja eh tarde para fugir, e os dois avioes caem no mar. Por alguns segundos parece que saimos ilesos, o barulho eh amortecido pela agua e nada acontece. Todos se entreolham, assustados porem felizes, afinal o aviao maior conseguiu evitar a tragedia da destruicao da comunicacao da Ilha com o continente.
Entao, de repente, vem uma onda muito alta, mas ela nao quebra, e todo mundo consegue boiar, sendo levado para cima. E de cima, podemos ver que ela funcionou mais ou menos como um tsunami, e comeca a invadir as ruas com agua. A onda se formou devido a queda do aviao, afinal a agua teve que se deslocar para algum lugar, e passou a inundar tudo.
Ao mesmo tempo, pedacos do aviao em chamas comecam a cair por todos os lados, acertando as pessoas.
Apos alguns segundos de calmaria, a agua volta para o fundo, puxando numa correnteza muito forte, derrubando e engolindo os desavisados, desde os que estavam na agua, ate as pessoas que se encontravam nas ruas.

Estou aguentando firme, e comeco a perceber o quanto fui ingenua, nao haveria escapatoria. O aviao menor seria arremessado contra a estacao para arrasar o sistema de transporte da Ilha mais importante do mundo, porem possivelmente como um plano B, no caso de ser interceptado por um aviao militar robusto, ele iria aproveitar o peso dos dois para criar uma inundacao e destruir a ilha por completo.
Na tentativa de fugir do aviao, levei as pessoas para o mar, e sem saber, levei-as para o centro do ataque. Da mesma forma que o piloto do aviao maior, pensando em desviar o aviao terrorista da estacao do metro, jogou-os onde nao havia ninguem, sem prever que uma inundacao mataria a todos afogados.
Enquanto isso se passa na minha cabeca, mais uma onda enorme veio de tras, eu perco a mao que me dava apoio. Ainda podia ver as pessoas, mas ja estou distante de qualquer alma viva. O fogo continuava caindo do ceu, as pessoas gritam desesperadas... para mim, esse som esta bem ao longe, os segundos parecem se estender por muito tempo na pequena calmaria entre uma onda e outra.
Quando agua volta novamente, puxando pro fundo a adrenalina torna a correr nas minhas veias, enquanto sou arrastada e engulo muita agua. Ja nao consigo enxergar nada, ha sal e fumaca em meus olhos. Sinto apenas a agua salgada com gosto de areia na boca. Uma nova onda enorme, dessa vez ela quebra bem onde estou, parece que levei uma chicotada e sou carregada pela agua, momento em que perco a consciencia.

Acordo, a ultima coisa que lembro eh do gosto de areia na boca. Nao consego enxergar nada, tem uma luz muito forte em meu rosto, tudo comeca a rodar. Desmaio.
Acordo de novo, percebo que estou num hospital, tento falar e nao consego.
"Sera que estou muito fraca ou sera que me machuquei seriamente? Posso estar em coma ou paralisada. O que sera que houve com as outras pessoas? O que aconteceu com a Ilha e seu projeto altamente confidencial?"

Foi durante esses questionamentos que comecei a perceber a passagem do tempo. Sinto que fiquei muito tempo desacordada. Todas as coisas assustadoras e secretas que sao realizadas na Ilha provavelmente foram destruidas, ou pior, descobertas. O trabalho da vida de tanta gente, inclusive a minha, jogado fora naquela fatidica tarde. Suponho que nao vale a pena viver num mundo onde o trabalho da Ilha foi destruido... e, ainda mais assustador, concluo que um mundo onde os segredos da Ilha foram descobertos nao tem lugar para pessoas como eu. Escolho perder a consciencia novamente, e dessa vez para sempre. Fim.

O irmão

Era uma vez uma família que consistia numa Mãe solteira e seus numerosos filhos. Sara nunca foi filha única, ela sempre teve um irmão mais velho, Marcos, e apesar de fazer muito tempo ela ainda se lembra de quando era a caçula.
Sara sempre adorou Marcos, ele brincava com ela sempre que podia, sempre que estava por perto. A Mãe sempre esteve muito ocupada, trabalhando ou cuidando dos filhos, quase nunca tinha tempo para ela, nem ao menos para conversar.

Depois de Sara, outras crianças vieram: Lúcia, Joaquim, e o gêmeos Ricardo e Henrique. Marcos era praticamente uma figura paternal para eles, já que nenhum deles tinha pai, e a Mãe se recusava a falar sobre isso.
Conforme ia crescendo, Sara notava que Marcos, de tempos em tempos, desaparecia e voltava. Ele apenas dizia que tinha que cuidar de alguns problemas num lugar distante e nada mais, e sempre que partia parecia muito triste e chateado, mas quando reaparecia, era sempre o Marcos alegre e brincalhão que ela se lembrava. Esse provavelmente era mais um segredo dessa família estranha, outro assunto que a Mãe nunca aceitou conversar.

A Mãe era uma mulher muito rígida e organizada, e talvez por isso nenhum dos filhos jamais teve coragem de desafiá-la ou ao menos questioná-la. Sara supunha que os desaparecimentos de Marcos eram algum tipo de revolta, visto que ele ia embora triste, provavelmente era algo que o incomodava tanto que o fazia ir embora.
Sara sempre se lembrou de Marcos como um irmão muito mais velho que ela, já adulto quando ela era criança. Porém, conforme o tempo foi passando, ele não parecia mais tão velho assim, ele continuava parecendo um jovem adulto, enquanto ela passava da infância para adolescência e muitas transformações ocorriam em sua vida.

Um dia, no auge da rebeldia adolescente, ela resolveu confrontar a Mãe. Marcos tinha sumido novamente há poucos meses, e agora ela já sabia distinguir os sinais: a Mãe estava novamente grávida, carregando mais um filho sem pai, que sobraria para ela, Sara, ajudar a cuidar. Ela ligou os pontos finalmente, todas vez que Marcos desaparecia também coincidia com a data aproximada do nascimento de cada um deles.
Será que ele, por também ser um filho sem pai, se revoltava pela Mãe fazer isso com cada um deles e por isso ia embora? Então, porque ele voltava? Ou melhor, já que ele sempre foi mais velho e sábio, porque nunca a confrontou com aquilo que o incomodava?

Sara fez essas perguntas à Mãe, não com delicadeza, mas com a crueldade de quem se vinga de seu algoz. Eles eram condenados há viver no limiar da pobreza por serem uma família muito numerosa sem ninguém para ajudar. Nunca conheceram um parente, a Mãe nunca teve um amigo. Nenhum deles tivera um pai na vida, nem presente, nem ao menos sabiam um nome ou uma história para explicar essa ausência. Nem um rosto, pois nunca viram a Mãe com nenhum homem, dentro ou fora de casa. Nada.
Sara, por ser a mais velha, tinha que usar seu tempo livre fora da escola para cuidar de seus irmãos mais novos. Essa ocupação a distanciava ainda mais da realidade das pessoas "normais", e ela tinha medo de se tornar como a Mãe: uma pessoa fria, cheia de obrigações, sem amigos nem tempo para qualquer tipo de distração.
Os únicos momentos que a Mãe parecia feliz era quando Marcos estava por perto, e no fundo Sara sentia inclusive um certo ciúme. Será que a mãe amava mais ao Marcos do que a ela, ou aos outros irmãos?

Depois de ouvir essa teoria conspiratória, a Mãe se sentou e chorou. E choro se transformou num riso, um riso nervoso e insano. Ela então tirou uma chave que usava no pescoço como pingente e levou Sara para seu quarto. Abriu um cofre que ficava preso à parede.
Dentro desse cofre, a Mãe tirou um artefato estranho, que parecia um relógio antigo, desses de bolso. Quando abriu o visor do objeto, via-se que não era um relógio, e sim uma espécie de marcador. Uma barra onde um líquido verde viscoso mostrava que estava quase cheio.

"Marcos não nasceu aqui, como vocês. Ele é de outra época, outro tempo. Ele é um físico que trabalha num laboratório experimental. Um dia ele conseguiu uma brecha no tempo e espaço e foi assim que nos conhecemos. Marcos não é seu irmão.
Essa brecha não se mantém aberta sozinha, e por isso ele precisa voltar de tempos em tempos. Porém, o tempo que ele passa lá é percebido diferente aqui, poucos horas ou mesmo dias podem virar anos desse lado, por enquanto envelheço e vocês crescem, ele continua jovem. Ele não pode simplesmente fechar a brecha e ficar aqui, pois perderia sua conexão com a existência, sua massa não se sustentaria e ele deixaria de existir.
Em seus estudos, Marcos descobriu que a única forma de se manter aqui sem a brecha ser usada como cordão umbilical, seria ter ele uma ligação com esse lado. Esse visor mostra o quanto ele está conectado com nosso mundo. Essa conexão está sendo feita com o nascimento de cada um de vocês, vocês são a ligação que Marcos tem com esse universo e esse tempo, e assim que eu der à luz a essa última criança, o visor ficará completo, e Marcos poderá finalmente estar aqui para sempre. Marcos é seu pai." Fim.

Professores roubam um bebê

Era uma vez um grupo de três professores de biologia, dois homens e uma mulher, que resolveram roubar uma criança que nasceu numa cidade do interior.
Eles enganaram os pais da criança ainda no hospital, se passando por médicos/enfermeiros, e levaram o bebê embora.

Por algum motivo, eles acreditavam que aquela criança tinha alguma mutação prejudicial a espécie humana. Mesmo depois de muito discutirem entre si, chegaram a conclusão que a única forma de fazerem os testes e descobrirem era roubando o bebê.

Depois de terem cometido o delito, estavam os três com o bebê no carro, e já estava sendo anunciado no rádio que a polícia estava procurando o trio que roubou o bebê. Era filho de um casal muito rico e influente na cidade, e por isso nenhum esforço foi poupado, e a tensão entre eles aumentava a cada momento.

Chegaram na capital, porém seus rostos já estavam na TV, seus nomes eram conhecidos, eram o assunto do Brasil todo. O bebê já começava a chorar, possivelmente com fome e sujo, e os professores não tinham como cuidar, pois não tinham planejado com antecedência.

Resolveram ligar para o pai da criança avisando que iam devolver, com o intuito de ganhar tempo. Enquanto um deles falava ao telefone, um transeunte ouviu a conversa e deduziu que eram os professores com o bebê, e começou a gritar, chamando a polícia.
Eles pegaram o carro e foram pra cima de um viaduto. Vendo que não teriam como escapar e seriam presos, deixaram o bebê no carro, numa cestinha, em segurança, e se jogaram da ponte para a morte certa. Adeus mundo cruel.

Os pais recuperaram a criança e deram entrevistas ao jornal, do desespero de perderem o filho, do alívio de reencontra-lo e da incognita da motivação dos sequestradores, que nunca pediram dinheiro. A população logo esqueceu o caso e nunca ficou sabendo o motivo dos professores que levaram a criança, e porque eles preferiram morrer do que ser presos.
Mas alguém sabia.

Alguém sabia que os professores preferiram morrer porque a aberração causada nessa criança traria para o mundo algo pior que a morte rápida. Uma chaga no código genético, que daria a um ser inocente a capacidade de dizimar populações inteiras.
Ninguém sabia, mas os pais do bebê eram cientistas que se conheceram trabalhando no projeto de condificação no genoma. Que desenvolveram uma relação muito íntima ao trabalharem para empresas que fazem alimentos transgênicos em laboratório. E juntos desenvolveram seu maior projeto.

Quem sabia a verdadeira motivação dos professores eram os próprios pais da criança, que a idealizaram com propósitos grotescos e com o intuito de controlar o poder do filho a seu bel prazer.
E então, depois de dar todos os esclarecimentos necessários a polícia e a imprensa, os pais foram embora, levando seu filho no colo e um sorriso malicioso na boca.
Adeus mundo cruel.

O Pai - As aventuras de Scarleth Werewolf

Conto: O Pai
Coleção: As Aventuras de Scarleth Werewolf


Era uma sala de reunião. Uma mesa muito comprida, as paredes brancas, a luz fria. Estávamos quase todos lá, velhos, cansados. Até o Jorginho estava lá. Jorginho só no nome, pois era o mais velho de todos, muito mais idoso que todo mundo.
Fazia tempo que não nos reuníamos, a irmandade se acabou e a força também.
Eu presidia a reunião, mas ela ainda não tinha começado, estávamos esperando os últimos chegarem... e foi durante esse tempo que fui lembrando como nos conhecemos e porque estávamos nos reunindo ali.

Era uma tarde de sol bem quente o dia que conheci o Jorginho. Ele era dono do Mercado do Jorginho, um mercadinho de bairro de tamanho médio. Trabalhava no balcão de atendimento ao consumidor e supervisionada os outros funcionários. Ele tinha uns 45 anos na época, mas os cabelos brancos já eram abundantes.
Eu estava na rua do mercado, correndo, desesperada. Foi a primeira vez que aconteceu, eu não sabia o que era e por isso meu desespero. Corria, mas não tinha destino, apenas corria como se fosse possível deixar tudo pra trás, desfazer a realidade, igual quando a gente acorda de um sonho.
Não sei como ele soube, talvez por causa dos cachorros do estacionamento, que não eram bem cachorros e começaram a latir para mim. Ele saiu do mercado, e me parou. Jorginho usava o colar com aquele símbolo azul, e ele brilhava muito.
Ele me acalmou, me fez entrar, e me levou para uma salinha nos fundos. Sua esposa e seus filhos estavam lá, mais alguns funcionários. Todos usavam um colar com o mesmo símbolo.
Entrei, não entendia o que estava acontecendo, mas estava tão perdida que aquela reunião de pessoas desconhecidas fazia mais sentido do que o que acabara de me acontecer. Eu havia virado um cão.
Um cofre foi aberto, tiraram um colar idêntico e foi colocado em volta do meu pescoço. Na hora, voltei a ser pessoa. Todos me felicitaram, com abraços e apertos de mão, e então Jorginho, que parecia o líder daquelas pessoas, me disse “Parabéns, você é um lobisomen”.

Uma coisa que não mudou em Jorginho foram os cabelos brancos, desde aquela época só aumentaram. Agora sua cabeça foi praticamente toda tomada pelos fios dourados. O que mudou, no entanto, é que ele não usava mais o colar, e também não era mais o chefe do grupo.
Quem se senta agora na ponta da mesa sou eu, e também fui eu quem o convocou. Não tenho essa posição por que quero, apenas porque sobrou para mim depois que Jorginho foi embora sem dar explicação. O lugar ficou muito tempo vago, ninguém se atrevia a tomar seu lugar, nem eu. Nossa organização desmoronou, o poder subiu a cabeça de muitos de nós, sem um guia para nos liderar a coisa foi tomando proporções maiores, onde ninguém se respeitava.
Também cheguei a abandonar a matilha, achava que era a coisa certa, afinal foi o que Jorginho fez. Quantas noites me debati com o fato de não saber porque ele nos abandonou, e que o motivo deveria estar na nossa cara, porém me sentia idiota por não enxergar.
Até o fatídico dia que entendi que eu tínhamos que nos unir, que éramos muito mais do que a vontade de um líder, e que se ninguém se dispunha a ficar no lugar que Jorginho outrora ocupou, eu tinha a responsabilidade moral de encarar esse desafio.

Era uma manhã de inverno com sereno. Não nos reuníamos mais naquela época, o mercadinho estava fechado e nosso ponto de encontro era um terreno baldio na cidade. Isso dizia muita coisa sobre nós, antes organizados num comércio, agora jogados num lugar que não servia para nada, assim como nossa matilha.
Fomos todos para lá, mesmo sem uma convocação formal. Era o certo a fazer, e pelo menos isso nós nunca esquecemos. Saiu na capa do jornal: um jovem apareceu morto, decapitado, com marcas de garras pelo corpo, como se tivesse sido atacado por uma besta.
Nós sabíamos o que eram as marcas, e que não fora um assassinato, e sim um suicídio. Nos sentimos culpados por não termos acolhido o garoto. A mudança é difícil, confusa, e não havia mais uma organização ou qualquer pessoa disposta a guiar o novato pela transformação.
Todos foram para o mesmo local por luto, por medo, ao mesmo tempo para atacar uns aos outros, culpar alguém pela tragédia, e no fundo esperando que alguém nos culpasse, que isso fosse um tranco que fizesse esse motor parado finalmente pegar.
Ele morreu sem ao menos receber uma explicação, ninguém se deu ao trabalho de contar o que acontecia e ninguém achou que ele tivesse valor o suficiente para ganhar o colar azul. E isso era o que mais doía: todas essas atitudes na verdade não diziam nada sobre o garoto, e sim sobre nós.
Foi então que tomei as rédeas, depois de tantos anos sem ninguém sentado àquela cadeira. Toda e qualquer matilha tem um líder, e por isso mesmo sem um líder não éramos mais uma matilha, éramos nada.

Nenhuma mudança é simples, e demorou para que eu fosse aceita. Nunca tive a intenção de substituir Jorginho pelo que ele foi e representou para todos nós. E foi com essas palavras que iniciei a reunião. Estavam todos surpresos e alegres de ver nosso antigo líder ali, e desconfortável pelo fato de sentar numa cadeira de convidado e não de líder. Quem mais se sentia desconfortável era eu, mas nunca deixaria isso abalar o que havíamos conquistado até agora.
Jorginho e sua família foram chamados até essa sala, não como desertores, não como membros da matilha. E sim para ouvirem uma oferta. Os membros antigos estavam todos lá, muitos rostinhos novos também, principalmente de jovens que tiveram a transformação recentemente e, graças a nova força da matilha, não tiveram o mesmo destino do garoto que estampou os jornais anos atrás.
A oferta, na verdade, eram duas. A primeira, oferecemos seus colares azuis de volta. São com esses artefatos misteriosos que conseguimos nos comunicar, nos reconhecer e nos ajudar. Nenhum lobo pode ter uma vida completa sem ele, é muito mais do que um símbolo da matilha, é um símbolo da própria raça.
A segunda oferta foi a palavra. Ninguém pode falar sem que o líder permita, e com tanto tempo sem um líder quase perdemos a nossa comunicação. A palavra foi oferecida a Jorginho e sua família. Jorginho se levantou e a segunda oferta também foi aceita. O pai pródigo a casa retornou.
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Baseado num sonho que tive há algum tempo.

Doce Vingança

Esse foi um pesadelo que tive, parece um pouco o filme Doce Vingança, é bem pesado, então aconselho quem for meio fraco a não ler.

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Era uma vez uma menina pobre, nao devia ter muito mais do que 13 ou 14 anos. Ela estava andando na beira da estrada, sozinha. Logo a frente parou um ônibus de excursão, era de um clube de meninos ricos.

Eles descem e a estupram, um por um, todos eles. O único adulto era um senhor de meia idade, que aparentemente organizou e instigou o ataque.

Uma coisa cheia de violência e tal.

Por fim, sobem todos organizados no ônibus, com a mesma organização com que fizeram fila para abusar da garota. Foram embora.

Ela fica ali, na beira da estrada, sozinha. O mundo totalmente alheio ao que aconteceu a ela, mas nela, junto aos hematomas e à humilhação, alguma coisa mudou.

Chega em casa, uma especie de cortico, onde ninguem se importa muito com ela. Ela arruma as poucas coisas que tem num saco plastico, e antes de sair pega tambem uma lista telefonica.

Comeca a andar na cidade e maquinando seu plano de vinganca. Encontra um lugar escondido para dormir, e passa boa parte da noite procurando na lista aquele simbolo que estava nos lindos uniformes dos meninos, uniformes tao limpos e organizados que escondiam a imundicie de suas almas.
Encontrou, arrancou a pagina que tinha o nome e endereco do local, colocou no bolso e dormiu o sono dos justos, usando a lista telefonica como travesseiro.

No dia seguinte, procurou um emprego. Precisava de dinheiro para comer e dormir num lugar antes de comecar efetivamente seu plano. Nao podia ser um emprego qualquer tambem, teria que ser um em que ela aprendesse a se misturar na alta sociedade como se dela pertencesse. Teria que saber falar e agir de maneira apropriada. Ela so ia conseguir sua vinganca se cortasse o mal pela raiz.

Ela foi crescendo, trabalhando em restaurantes e lojas de roupa, sempre observando e aprendendo, e com seu cuidado em parecer uma pessoa refinada, acabava valorizando ainda mais seu trabalho e conseguindo melhores posicoes, se passando principalmente por adolescente de classe media procurando emprego eventual de ferias. Ao mesmo tempo, pesquisou tudo que havia para saber sobre sobre o clube.

Descobriu que o tal senhor de meia idade era o dono do clube, e tambem o dono de quase toda a cidade, um milhonario, que vamos indentificar como sr. X. Os socios do clube estavam entre os filhos das familias mais ricas do local, entre eles o filho do sr. X.

Juntava tudo que podia de seu dinheiro, morava num quartinho, comprava roupas de grife sempre usadas em brechos. Com o que tinha em dinheiro, se infiltrava nos mesmos lugares que as pessoas ricas iam, la se sentiam a vontade e estavam com a guarda abaixada, de forma que fazia muitos amigos, pois pensavam que ela era como eles.

Entao, o destino sorriu pra ela, e ela nao apenas conheceu o filho do sr. X, como ele ficou totalmente impressionado por sua beleza e educacao e acabou correndo atras dela. Ela se fez de dificil, e ele, como acostumado a ter tudo o que quer, encontrou nela um desafio... em pouco tempo estavam namorando serio e com casamento marcado. Seu plano estava se encaminhando.

Casaram-se, e ela se tornou esposa do unico herdeiro do sr. X, sendo ela indiretamente herdeira de tudo aquilo que jurou destruir. Moravam todos na mansao do sr. X, e todos os dias tomavam cafe da manha juntos.
Ela fazia questao de descer antes de todos e ajudar os empregados a arrumar o cafe da manha, de forma que podia colocar um certo liquido no cafe especial do sr. X, que em pequena quantidade nao mata, mas tomado todos os dias, logo o levaria a um ataque cardiaco.

O fatidico dia chegou, estavam apenas os dois em casa quando ele caiu no chao com a mao no peito. Ela fechou a porta do comodo em que estavam, foi ate o chao, ajoelhou-se ao lado do sr X e ficou olhando enquanto ele agonizava, para ter certeza que ele morreria ali. Quando ele estava prestes a dar seu ultimo suspiro, ela o relembrou quem ela era e que a justica estava sendo feita.
Ele caiu duro com o semblante mais surpreso que alguem poderia ter, e so entao ela saiu gritando pela ajuda dos empregados.

O sr X estava morto, e so faltava ela acabar com seu filho para ser a dona de tudo, e poder cacar com tranquiladade um por um de seus agressores.
Seu marido, filho do sr X, estava muito transtornado com a morte do pai e por isso ela inventou uma viagem, a ser feita assim que o inventario do sr X fosse resolvido.
Seu marido escolheu o local, iriam para a casa de campo da familia, onde la ele teria uma surpresa para ela.

O inventario foi feito, tudo se tornou deles, e eles foram fazer a tal viagem. Chegando la, ele disse que ela precisava conhecer um lugar ali perto, onde havia um segredo da familia.
Nesse meio tempo, ela ja havia preparado tudo para o acidente que tiraria a vida de seu marido, tornando-a uma viuva rica, seria no fim do dia seguinte.
De manha, foram ao tal lugar que havia um segredo. Ela ate riu consigo mesmo, que nada seria maior que seu proprio segredo.
Eles se adentraram a algum tipo de hospital psiquiatrico-fazenda, e la dentro ele dizia que na verdade tinha um irmao gemeo, que acabara ficando louco. Ele disse que se sentia muito mal pela historia, pois pouca gente sabia que eles eram irmaos gemeos, afinal ele era o gemeo doente, e ate uma certa idade, devido a certas alergias, mal saia de casa.
Seu irmao, no entanto, era muito proximo de seu pai, e num passeio do clube acabou voltando transtornado e desse dia em diante enlouqueceu. Ele nunca soube o verdadeiro motivo. Mais ou menos naquela epoca, foi inventada uma cura para seu problema de saude, e ao mesmo tempo que seu irmao ficava recluso, ele passava a ter uma vida normal.
Devido a loucura de seu irmao, ele nunca quis participar do clube, e as pessoas nunca pareceram notar que os filhos do sr. X foram trocados. A familia tambem pagou a imprensa para manter embaixo dos panos qualquer suspeita, e o filho problematico foi internado com um nome falso.

Quando entraram no hospital, e o irmao a viu, deve te-la reconhecido, pois teve um ataque e teve que ser tranquilizado com medicamentos e encaminhado para uma cama. O casal foi embora, mas agora ela sabia a verdade.
E agora? Ja era tarde demais para mudar os planos para o acidente. Ela teria que continuar adiante, e o marido, mesmo inocente, seria so mais um sacrificio que faria no caminho da vinganca.

Entraram no carro, e enquanto desciam a colina os freios pararam de funcionar. O carro bateu, porem o cinto de seguranca dele estava solto e ele foi arremassado para fora do carro. Ela acorda no hospital, com alguns pontos no braco por causa do vidro, e nada mais. Entao, eles a avisaram que estava viuva. Fez o showzinho apropriado, e pediu para ser deixada sozinha.
Entao, ela pensou "acho que algumas familias parecem que sao amaldicoadas, e esse karma vai seguir adiante para cada um que tentou destruir minha vida", entao ela sorriu e dormiu o sono dos justos, porque amanha tem mais. Fim.

Expedição para salvar pessoas num ataque de zumbi

Era um mundo dominado por zumbis.
Eles são lerdos, não correm, não são muito selvagens.
Porém, fedem e são nojentos. E tem aquele brilho no olho, da dó, parecem vivos.

Eu não gosto do acampamento que os humanos remanescentes fizeram. Me sinto mal lá, tentando viver uma vida que não existe mais, enquanto pode ter gente nas cidades, precisando ser resgatadas.

Além disso, não tenho medo dos zumbis. Eles são estúpidos o suficiente para você passar correndo perto deles, e nada como uma paulada na cabeça para que parem de se mexer. É só tomar cuidado, usar roupas compridas e grossas para não ser arranhado e evitar entrar no território deles a noite, porque não temos mais eletricidade.

Minhas incursões na cidade também servem para pegar remédios, mantimentos, suprimentos em geral. Distribuo entre os que precisam, nunca reconheci a liderença do acampamento, que como esperado é corrupta e pouco me ajuda.

Vou sempre sozinha, tenho dificuldade em confiar nas pessoas e não gosto de carregar peso morto.
Estou andando de moto por uma rua, eles me vêem, andam na minha direção, abrem a boca e balbuciam sons sem sentido.
Enquanto andam se arrastando por aí, dá para ver que escorre um líquido pegajoso deles, um tipo de chorume.

Há pouco tempo encontrei uma loja de armas, coisa rara num país onde arma é praticamente proibida pro cidadão comum. Existem poucas armas no acampamento, e ficam na mão de poucos também. Nunca levei as armas que achei pra lá, tenho meu próprio esconderijo... independente de quem tiver as armas, quanto menos melhor.
Antes de achá-las, eu estourava a cabeça dos zumbis com pedaços de pau cheios de prego ou com um velho taco de baseball que tinha em casa (esse foi o que salvou minha vida quando o surto começou).

Agora com armas e munição, tenho treinado minha pontaria. As vezes atiro neles por diversão. Já me peguei na curiosidade de olhar o corpo deles, apesar do odor repugnante: suas feridas recentes tem pus, e as mais antigas já estão carcomidas pela gangrena.

Percebo em volta de um prédio que há lixo recente, latas e garrafas, até papel higiênico. Provavelmente jogados de uma janela.
Resolvo que vou entrar no prédio, se tem gente refugiada lá, mais cedo ou mais tarde vão ficar sem comida e vão precisar sair. Melhor que saiam comigo.

É um prédio único, sem portaria. Chuto a porta na fechadura até que ela abra, está escuro lá dentro, o máximo que consigo enxergar é da luz do sol que vem de fora.
Na rua não tem ninguém, deixo a porta aberta para atrair quaisquer criaturas que houver lá dentro.
Espero.
Sai um homem, não consigo definir se é um homem negro ou se a cor se deve a sua pele estar em carne viva. Ele se movimenta muito devagar e eu espero mais um pouco, porque se atirar nele na porta do prédio, vou ter que mover o corpo pra poder entrar e não estou a fim de sujar minha roupa hoje.

Ele sai, atrás vem mais um... ótimo, enfilerem-se para o abate.
Atiro em um, atiro no outro.
Espero mais um pouco, aparentemente não vai mais sair ninguém.
Entro com cuidado, está vazio. No andar térreo não tem apartamentos, subo pelas escadas para o próximo andar. Nos corredores não tem zumbis, o cheiro está até tolerável.

São dois apartamentos por andar. O primeiro deles está com a porta semi aberta, só fechado com aqueles trinquinhos de corrente na porta. Bato devagar na porta, mesmo sabendo que não vou encontrar boa coisa ali.
Vem uma mão de mulher pra fora, unhas quebradas, sujas de sangue em volta, depois chega o rosto meio mutilado, a boca aberta babando um líquido escuro.
Dou um tiro na testa e acabo com o sofrimento da pobre coitada.

Puxo a maçaneta e fecho a porta. Com um spray, faço um X vermelho ali, que pode ser interpretado como "não entre - aqui só tem carniça", ou qualquer outra coisa pior.
Vou para a próxima porta, bato 2 vezes e me afasto numa distância segura.
Ouço uma voz gritando lá de dentro:
- Não tem pão velho.

Em meio a tanta desgraça, aquilo foi absurdamente engraçado. Uma pessoa viva, e com senso de humor. Ótimo, era o que eu precisava para salvar meu dia.
A porta se abre, um homem de uns 30 anos, cabelos claros totalmente despenteado e barba por fazer, fica parado entre a porta e o apartamento me olhando desacreditado.
Guardo a arma na cintura:
- Tem um acampamento com pessoas vivas, você não precisa mais ficar nesse Castelo dos Horrores.
- Obrigado, mas não obrigado.
E fecha a porta na minha cara.

Bato na porta de novo, agora com o revolver na mão.
Ele abre, agora com uma cara 50% entediada, 50% insana.
Novamente sou eu que tem que começar a conversa:
- O que você vai fazer quando acabar sua água e comida? Vai pedir uma xícara de farinha pra sua vizinha zumbi?
- Eu não me importo, aqui tenho minha família e quando não aguentar mais vou me entregar pra eles.
Ele escancara a porta e vejo várias pessoas sentadas nas cadeiras da mesa de jantar, presas por correntes. Estão todos cobertos de sangue, desgrenhados, roupas sujas. Há 3 adultos, e uma criança. Quando olho com atenção, a criança não tem lábios, parece que foram arrancados com os dentes, comidos.

O senhor entediado-insano se senta no sofá e começa a falar, mas não comigo.
- E então Beth, o que você acha da nossa convidada para o jantar?
Então ele faz uma voz de mulher e responde a si mesmo:
- Adorável, meu amor. Vou por mais água no feijão.
Agora com uma voz infantil e esganiçada:
- Papai, papai, posso mostrar pra ela minha boneca nova?

Aquilo é deprimente demais, e desse aí posso salvar o corpo, mas a mente já era.
Faço um favor para mim mesma e fecho a porta do apartamento, faço um X vermelho. Ele não vai durar muito tempo, aposto que será a sobremesa do jantar.

Subo mais um lance de escadas.
Um dos apartamentos desse andar nem tem mais porta, foi derrubada. Faço algum barulho e fico esperando. Ninguém.
Entro, está tudo revirado. Na pia tem restos de comida mofados, muitas moscas.
Desde que os zumbis apareceram todo lugar que se vai tem moscas, primeiro porque esse monte de defunto ambulante atrai inseto, segundo porque provavelmente a dedetização começou a vencer e ninguém está aqui para passar veneno de novo.

Saio e fecho a porta, não faço nenhum sinal nessa, está livre.
Na casa ao lado, nem vou bater... tem alguém - ou alguma coisa - se jogando na porta. É possível ouvir - tum - e algo que cai no chão. Arranha o chão para levantar - tum - o corpo bate na porta e cai no chão de novo.
X vermelho na porta. Próximo andar.

Duas portas fechadas.
Bato em uma, o buraco do olho mágico escurecesse.
Fico atenta, arma na mão.
A porta se abre, um homem de meia idade aparentemente saudável me vê, se assusta com o revólver e fecha a porta de novo.
Guardo a arma, bato de novo
- Guardei a arma, tá tudo bem, isso é só pra se proteger das criaturas.
O ritual se repete: o buraco do olho mágico escurecesse e a porta abre.
Vejo uma família, pai, mãe e 2 filhas, uma adolescente aparentando 15 anos e outra com cara de 9 anos.

Eles me convidam para entrar, aceito, parecem todos saudáveis.
- Você está perdida? Não temos muito, mas se você quiser ficar... - oferece o pai.
- Não, não... Há um acampamento. Tem comida, água, remédio. Se vocês quiserem ir, posso levá-los até lá.
- Mas como? Andar nessas ruas cheias de mortos é loucura! - diz a mãe.
- Tem uma van, não muito longe daqui. Usei recentamente para levar coisas para o acampamento. Dá para irmos todos pra lá, e ainda sobra espaço para para as malas, se quiserem levar alguma coisa

Toda vez que escolto alguém pro acampamento fico sentindo um pequeno arrependimento. Gosto do desafio e da emoção de desbravar a cidade sozinha, mas quando tem gente comigo, me sinto responsável por elas, e deixa de ser divertido.
Eles parecem boas pessoas, e o arrependimento quase foi embora, até que...

Eles me deram um pouco de refrigerante quente para beber enquanto arrumavam algumas malas. Roupas, sapatos e o resto do que tinham de comida.
Parecia uma família se arrumando para uma viagem para a praia. Ouvia a mãe dizendo para as filhas não levarem o que não fosse usar, a filha menor implorando para poder levar suas bonecas.
Alguma coisa já estava arrumada quando o pai veio falar comigo.

- Elas já estão terminando. Estou preocupado, como vamos correr carregando malas nessas ruas perigosas?
- Vocês não vão andar, vão ficar aqui enquanto eu busco a van. Estacionarei na porta do prédio, e só então vocês descem.
- Você vai sozinha? Por favor - começou a chorar - não nos abandone agora... Deixe-me ir com você. Não posso deixar que a única esperança que minhas filhas tem de sobreviver simplesmente saia pela porta. Vou junto.

Não gostei da idéia, nunca gosto, mas o homem chorava e não consegui dizer não.
Ele se despediu da família, e descemos juntos. No térreo, ele apontou para uma porta corta fogo, que além de fechada tinha algumas ripas de madeira ajudando a mantê-la fechada.
- Ali é a garagem do prédio, podemos pegar meu carro ao invés de nos colocar em risco na rua.
- Alguém fechou essa porta e teve o cuidado de colocar essas madeiras, você realmente acha uma boa idéia entrar aí?
Falei enquanto abri a porta para a rua. A luz do sol, o vento e a visão dos dois corpos no chão não fizeram bem para meu novo companheiro de jornada. Ele entrou em pânico, se jogou no chão em posição fetal e começou a se balançar devagar pra frente e pra trás.

Fechei a porta, me ajoelhei, toquei em seu ombro. Ele se acalmou um pouco, se sentou e olhou pra mim.
- Eu sei que é difícil, mas não tem problema, sobe lá e fica com sua família... eu volto em 5 minutos, ou menos. Estou acostumada a andar por essas ruas e já limpei o caminho quando cheguei. E se eu for sozinha, vou de moto, chego ainda mais rápido. Fica tranquilo.
Ele se acalmou, ficou de pé e concordou comigo. Mandei ele subir de volta para o apartamento e saí.

A rua estava deserta, peguei a moto e fui para o lugar que estava a van.
As grandes avenidas estavam apinhadas de carros bloqueando a passagem, todas as rotas possíveis era usando ruas de bairro, nisso a moto era uma grande facilitadora.
Tive que ter o cuidado de traçar mentalmente um caminho onde uma van conseguiria passar.

A viagem foi tranquila, alguns zumbis me viram mas nenhum conseguiu chegar perto.
Deixei a moto num canto, entrei na van. Poucos veículos ainda tinham bateria e combustível, e por isso eu não levava a van para o acampamento. Eu a deixava na rua para ninguém sumisse com ela. Afinal, mais difícil que achar uma agulha num palheiro, é achar uma certa agulha no meio de outras agulhas.

Cheguei com a van até o prédio, entrei e para minha surpresa a merda da porta da garagem estava aberta.
Muito bem, o senhor acaba de por sua família em perigo.
Voltei para a van e peguei uma lanterna que estava no porta luvas. Teria sido melhor para mim se tivesse simplesmente fechado a porta da garagem e levado as mulheres embora.
Com a luz da lanterna, pude ver o pai de família no chão, deitado, morto, e quatro ou cinco cidadãos do inferno se alimentando de suas vísceras, eles nem olharam para mim. Eu definitivamente podia ter passado sem essa.

Fechei a porta corta fogo. Fiz um X vermelho, subi.
Bati na porta, olho mágico, trinco, porta aberta.
- A van está lá embaixo. Vocês vão ter que se virar com as malas porque alguém tem que segurar o revólver.
- Cadê meu pai? - disse a garota adolescente.
- Lá embaixo, vamos logo. - De certa forma, não era mentira.

Fui a primeira a sair na rua, pedi que elas esperassem um pouco lá dentro.
Havia alguns mortos na outra esquina, andando de forma errante, calculei que até nós verem e andarem em nossa direção já teríamos saído dali.
Sem fazer muito barulho, abri a porta de trás onde se coloca as cargas, e a porta do passageiro.
Entrei no prédio e mandei que viessem rápido e sem fazer barulho, entrassem pelo compartimento de carga com as malas e fechassem a porta atrás de si.

Quando saímos, a mãe e a criança entraram, porém a adolescente olhou em volta e começou a gritar:
- Cadê meu pai?
Eu esperava que estaríamos já com o carro em movimento quando eu contasse a historinha que inventei de que o pai se sacrificou para que elas se salvassem. Mas não teve jeito.
- Entra no carro e eu te falo.
- Não! - ela gritava - Cadê meu pai? Onde você colocou ele?

Com tanto barulho, os zumbis nos viram e começaram a andar em nossa direção. A distância era de mais ou menos meio quarteirão, em geral eles eram lerdos, mas sempre tinha um ou outro que andava quase como uma pessoa normal e por isso não podíamos perder tempo.
Fechei a porta de trás da van, e puxando pela gola da camiseta, comecei a arrastar a menina pra dentro do carro pela porta do carona que estava aberta.

Ela começou a se debater e gritar:
- Está ali - apontando para onde os mortos estavam - Por que você quer largar ele aqui? Por que?
E saiu correndo na direção aos zumbis. Nessas horas eu penso que o mundo está de ponta cabeça, mas a seleção natural não falha.
Peguei a arma, atirei em um, ele caiu no chão. Fui atirar no outro, acabou as balas. Droga.
Não tinha tempo para recarregar e ter certeza de que não estaria colocando em perigo o que restou da família.

Entro no carro pela porta do carona, fecho, vou pro lado do motorista. Consigo ouvir a criança chorando, e a mãe tentando acalmá-la, mas também com o rosto cheio de lágrimas.
Dou partida, e assim que começo a andar, a menina encontra o primeiro zumbi.
Ela começa a chacoalhá-lo. Seria engraçado se não fosse trágico.
Outro a alcança, e nisso estou com a van em cima deles, paro do lado para puxá-la para dentro.

Quando vejo, já é tarde demais.
Ela está totalmente desvairada, mas tem alguns machucados no corpo. Ela foi contaminada.
Vou embora, a caminho do acampamento.
Algumas quadras depois, a mãe consegue sair do estado de choque e vem tirar satisfação comigo.

- Você acha que ela conseguiu?
- Conseguiu o quê?
- Lutar contra... aquelas coisas.
- Não, eu fui embora porque ela estava infectada.
- Não é possível, você precisa voltar.
- Você não vai querer que eu volte.
- Por favor, eu preciso! Eu não posso abandonar minha filha desse jeito.

Fiquei com pena. Parei a van, o lugar parecia seguro.
Recarreguei a arma enquanto a mãe e a filha se acomodavam no banco da frente junto comigo.
Achei estranho que ela não perguntou do marido, e comecei a falar... ela pôs os dedos nos lábios, indicando silêncio, e apontou para a criança. Entendi. Ela não quer traumatizar ainda mais a filha. Depois conversaremos de mulher para mulher, e ela conta para a menina o que achar adequado.

Manobrei o carro de volta, quando estavamos quase lá, já pude ver.
A menina não fora devorada, alguns tem essa sorte - ou azar - mas viram mais um desses canibais.
Ela andava devagar, arrastando um dos pés.
- Você quer mesmo ver?
- Sim.

Fui andando devagar, e parei do lado. Estavamos com os vidros fechados, era seguro.
Esse ser errante que outrora foi a filha da mulher que estava do meu lado, se virou para nós. Os olhos ainda estavam vívidos, mas não eram mais da adolescente que conheci no prédio, era de outra coisa.
Ela se jogou em direção ao vidro do carro, a criança começou a gritar.

Arranquei com o carro e partimos.
Quando chegamos no acampamento, ajudei a descarregar as malas.
Elas foram encaminhadas para uma triagem e ficariam em quarentena, procedimento de segurança padrão de todos que vêm de fora para lá. Depois seguiriam a vida.
Quando fui me despedir, a mulher finalmente perguntou sobre seu esposo.

- Nós fomos cercados, e ele acabou se usando de isca enquanto eu pegava a van para resgatar vocês. Ele fez de tudo para que fossem salvas.
- Tem certeza que foi isso que aconteceu?
- É assim que você vai lembrá-lo e passar a memória para sua filha.
Ela assentiu, mesmo que no fundo soubesse que eu tinha contado uma mentirinha. Ela bem sabia que era melhor assim.

Enquanto me virava para ir embora, ela gritou:
- Você salvou minha vida e não sei seu nome.
- Scarleth SlaysDead.

Fim.

David Bowie destruiu minha vida e eu destrui a dele

Esse foi um dos sonhos mas engraçados e bizarros que já tive, principalmente porque ele tem um final. O meio está meio confuso, mas o fim é ótimo. Sou apenas espectadora, e tem vários personagens. Vamos lá:


Havia uma cantora, ela era casada com algum tipo de produtor figurão da música. Eles eram vizinhos do David Bowie num condomínio fechado, e essa amizade foi muito produtiva para nossa cantora, pois com a influência de seu vizinho e amigo e o patrocínio do maridão, ela fez muito sucesso e ficou conhecida.

Até o dia em que o marido foi pego com outra, e um processo de divórcio mal sucedido a deixou com pouca coisa. Perdeu a casa e a maior parte do dinheiro, mas fez questão de levar o carro que ele tanto amava. Custava uma fortuna, era vermelho, conversível, lindo.

Com o fim do casamento e consequentemente o fim da fortuna, nossa cantora perdeu a influência nos meios badalados da música, e passou até mesmo a ser ostracizada pelos ricos, incluindo seu ex vixinho, David Bowie, que retirou seu "apadrinhamento" à carreira dela, o que a deixou extremamente chateada e furiosa.

Então, numa noite onde já tinha tomado algumas doses a mais, nossa cantor invadiu o camarote no fim de um show do David Bowie e foi tomar satisfação.
Ela conseguiu tirar ele de dentro da casa de shows, e foram para a rua. Era uma noite quente de verão. Seu carrão vermelho estava estacionado ali na rua também.

Começou uma discussão acalorada, e uma fã doida que passava por ali e viu tudo, resolveu tomar partido de seu ídolo. O David Bowie que não é bobo, aproveitou para escapar. E nossa cantora e a fã doida acabaram brigando aos tapas, até que caíram barranco abaixo.

Brigaram embaixo do barranco até a fã desmaiar, mas a cantora também não estava em bom estado. Ela demorou para achar a chave do carro no chão, no meio dos matinhos. Quando achou e foi indo devagar até o carro, a fã maluca acordou, entrou em outro carro e passou a bater um carro contra o outro.
E a briga continuou assim até os dois carros parecerem latinhas de refrigerante amassadas.

Agora, bêbada, sem dinheiro, com a carreira arruinada, e seu único bem valioso todo destruído, a cantora não tinha mais para onde ir ou o que fazer. Resolveu que não precisava ser apadrinhada nem ter boas conexões para cantar, pois tinha muito talento. E correu atrás.

O tempo passou, suas músicas continuaram fazendo sucesso, e agora única e exclusivamente por seu talento e paixão pela arte. Sua marca registrada se tornou aquele carrão vermelho todo amassado, que ela manteve, para sempre lembrar que ela pode ser muito mais do que os outros pensam.
A primeira música que fez muito sucesso e tocou em todas as rádios, muito mais sucesso que em sua fase pré separação, chamava-se "Sr. Bowie", e era tudo que ela gostaria de falar para ele sobre o fim de sua amizade.

Um dia, cinco anos depois de toda aquela atribulação, ela estava dirigindo e percebeu que estava em sua antiga rua, aquela onde era vizinha do David Bowie.
Então, ela resolveu ir lá. Era de madrugada, ninguém iria ver, ela só queria dar uma olhada em suas antigas casas.

Ela chegou, as duas casas, tanto sua ex casa quanto a do Bowie, estavam muito acabadas.
Ela achou estranho, e resolveu entrar. Chegou até uma janela e viu David Bowie ainda acordado, totalmente perturbado, falando sozinho. Todo aquele glamour e segurança que tinha antes, havia abandonado aquele ser.
Enquanto ela saía de lá, impressionada com o que viu, percebeu que tinha uma mulher sentada numa cadeira no quintal.

Ela olhou bem, e reconheceu. Era a fã louca que ela quase matou naquela noite fatídica, e responsável por amassar todo seu carro.
Claro que a mulher também a reconheceu.
Ela começou a contar que ela e o David Bowie se aproximaram após aquela noite, por ela te-lo defendido.

Primeiro, ele se ofereceu a dar um carro novo para ela, pois o dela também ficara destruído. Com o tempo, acabaram entrando num relacionamento.
Porém, quando a música "Mr. Bowie" chegou nas paradas, ele mudou.
Era como se aquelas palavras o tivesse tocado de alguma forma, e ele queria dar uma resposta.

Passou os últimos 5 anos esboçando uma música de resposta, e nunca conseguiu finalizar. Teve bloqueio artístico, e nunca mais conseguiu criar nada novo.
Também não via mais graça em tocar suas antigas músicas. Era como se a resposta tivesse ficado encralacrada em sua garganta, e nada mais saía de lá, nem coisas novas, nem velhas.

A fã continuo com ele, já que não tinha lugar melhor para ir, mas David Bowie era outra pessoa, apenas um fantasma do que fora.
Então a cantora agradece por ela não ter chamado a polícia pela agressão anos antes, e se desculpa pelo que fez.

A fã perdoa, e pergunta se ela pode ir embora com a cantora. Ela diz que sim, e as duas entram no carro vermelho amassado.
Quando ela está manobrando o carro para sair da ruazinha, vê um carro saindo de sua ex casa.
Ela quase bate no carro sem querer, acende o farol alto e vê que é seu ex marido.

Ele também está incrivelmente acabado, bêbado, sujo. Ele está tão mal que não reconhece seu antigo carro.
A fã conta que o ex marido da cantora também estava em maus lençois, havia perdido muito dinheiro na crise e passara a beber constantemente.

Então, ela faz a manobra com cuidado, para não bater no carro dele, pensando que em outros tempos, ela faria questão de bater e quebrar tudo, mas agora é outro momento, ela está por cima e não precisava se rebaixar ao nível dele.
Dá meia volta, e vai embora.

Liga o rádio e está tocando "Mr. Bowie", um dos maiores sucessos da década. Elas cantam o refrão juntas, com o vento batendo em seus rostos, cabelos soltos jogados para trás. Ambas prontas para o que a vida puder oferecer de novo, abandonando aquela rua decadente para sempre, para nunca mais voltar. Fim.

Trilha do amor - uma crônica

Todos conhecemos a história do cupido. Um ser alado que dá flechadas de amor nos corações alheios. O que poucos sabem é que existem dois cupidos.
Um deles só solta flechas duplas, envenenadas... tudo pode começar como uma amizade ou até mesmo uma desavença, mas aos poucos se torna amor e é mutuo.
O outro solta flechas de fogo, fogo esse que se consome rapidamente e logo desaperece, mas enquanto ele existe faz um grande estrago. Esse cupido nao se importa quantas flechas ele ataca: uma, duas, muitas. São corações incautos, peões nos jogos mesquinhos desse ser brincalhão.
Quando alguem toma uma flechada, nao sabe reconhecer que tipo de flecha se tornara alvo: do lento e profundo veneno do amor ou do inquietante fogo da paixao. E caem facilmente nesse jogo, de corações sedentos a procura de algo para se completar...

Havia uma carta, de inicio sem maldade, escrita por motivo de informacao. Oi, tudo bem, formalidades, mas uma leve amostra de quem estava escrevendo, um pequeno toque de personalidade. Interessante. Uma resposta, formalidades, personalidade.
Com o tempo abriu-se mao de toda formalidade e as cartas se tornaram de cunho pessoal. Cartas sem rosto, apenas dois nomes. Um nome de homem, um nome de mulher.
Sem rosto, sem voz. Facil de se abrir, contar sonhos e inseguranças. Coisas que a muralha da intimidade nao permite, aquelas coisas que só se fala sem olhar nos olhos.
Cada um imaginava pra aquele nome as qualidades que gostaria de ver. E a perfeição tomava forma.
Inquietude. Uma loucura. Uma proposta: vamos fugir. Uma recusa: gosto de você, mas não vou largar minha família. Um hiato. As cartas cessaram.
O arrependimento. Uma viagem. Oi, sabe quem eu sou?
E o fogo queimou rápido, corações em ruínas, totalmente desolados. O inferno e o paraíso, tanto juntos como separados.

Poderia ter sido eu, poderia ter sido você.